Imagem/Twitter

Diversos e Livres

Por Ivânia Freitas*

“Eu sei de quase tudo um pouco e quase tudo mal”. Os versos da canção do Kid Abelha, sucesso nos anos 1990, são de uma atualidade constrangedora! Vivemos em um século no qual o avanço das tecnologias da informação e comunicação nos proporcionou acesso diário a um conjunto incalculável de informações, como jamais se registrou na história da humanidade.

No entanto, o século mais avançado no campo comunicacional é o século dos paradoxos. Ao tempo em que há tantas possibilidades comunicacionais, vemos crescer posturas que negam todo o acúmulo da história e da ciência e isso é assustador, pois, ao invés de dar passos para avançar no conhecimento, vemos um retrocesso da inteligência coletiva.

Como disse o pesquisador espanhol Ignácio Ramone, em entrevista ao Jornal Opera Mundi Diálogos do Sul em 2019, “as falsas notícias avançam mais rápido que as reais, porque estas últimas requerem explicações e argumentos”, que acabam sendo contestados por afirmativas sem nenhuma preocupação com a veracidade histórica.

São várias informações que nos chegam a cada minuto, notícias verdadeiras e falsas que circulam via internet, causando uma confusão informacional sem tamanho. Sem tempo de refletir, especialmente quando as fake news passaram a ser parte do cotidiano, acabamos todos andando por dois caminhos: ou acreditamos e compartilhamos as “verdades” do anúncio, da postagem que recebemos do grupo do WhastApp ou nas centenas de posts do Facebook, ou tratamos tudo como uma mentira possível, como manipulação (sobretudo, se é contrário aos nossos interesses), colocando as informações em xeque, desconfiando ou negando, a partir de parâmetros individuais, sem nenhum comprometimento ou tempo para fazer a checagem sobre a procedência do que recebemos e da sua relevância.

Esse movimento intenso, marcado pela instantaneidade, onde coloca tudo como sendo duvidoso, tem nos feito banalizar a informação, dar pouca importância ao seu conteúdo que, além de superlotar a memória dos nossos celulares (e isso nos incomoda), vai nos deixando ansiosos e desatentos.

Quase não conseguimos controlar o desejo de pegar o celular, quando um sino ou uma vibração nos chama atenção. Não importa se estamos em uma reunião de trabalho, recebendo uma visita em casa, em uma consulta médica ou no meio da aula, se ele chama, logo vamos atender; olhar o que está lá. Quando não fazemos isso, ficamos inquietos e perguntamos: “será que é algo importante”?

Aplicativos como o WhatsApp parecem ter ativado o desejo coletivo de estar por dentro de tudo, de não poder perder nada. Essa ânsia pela conexão 24 (vinte e quatro) horas deixou-nos a sensação de que não apenas nossos celulares vivem com a memória cheia, mas nós também. A superlotação de informações causa-nos uma exaustão mental que nos faz abrir mão de olhar mais a fundo (com mais cuidado e precaução) o que circula via online, dispersando nossa atenção do que é importante.

A quantidade, a intensidade e a aceleração colaboram para o que estamos chamando de banalização da informação, do conhecimento, da ciência, da história e das relações sociais com base nos valores humanos. Acrescente-se a este cenário, a facilidade de manipular tudo o que circula via digital, onde é possível fragmentar, alterar, copiar, montar, reestruturar imagens, textos, vídeos e áudios. O fato é que hoje (e daqui em diante) não é (e nem será) tarefa fácil, sendo, pois, difícil distinguir o que é falso do que é verdadeiro.

Tais aspectos, somados aos interesses de grupos políticos, econômicos e religiosos que, munidos de alta tecnologia, poder financeiro ou exércitos de fiéis, vão construindo narrativas próprias cujos conteúdos moldam-se a uma realidade fictícia dentro da realidade concreta, configurando um cenário social cada vez mais complexo, multifacetado e também perigoso.

Por essa razão, fiquemos atentos! Todo esse jogo de manipulação da realidade é uma forma de colocar-nos distante do que realmente precisamos compreender.

Fiquemos atentos a este movimento. Quem dissemina mentiras, certamente tem algo que quer deixar invisível aos olhos da maioria. A velocidade e quantidade das informações são prato cheio para os que querem fazer da realidade uma fantasia e são a principal arma para nos distanciar da verdade dos fatos.

Para não cair na armadilha dos negacionistas (ignorantes que estão na moda), só tem um jeito: informe-se; busque os registros históricos e não confie em afirmações que em nada se fundamentam, a não ser no "achismo".

Lembremos: a ignorância é um prato cheio para os que querem ocultar a realidade e impedir sua superação.



* Doutora em Educação e Professora da UNEB - Campus VII.