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Semana passada as redes sociais foram movimentadas após uma postagem do youtuber Monark questionando se ter uma opinião racista é crime. Sinceramente, tem horas que dá muita preguiça ter que responder esse tipo de questionamento totalmente imbecil, mas o advogado Augusto Botelho e o filósofo Henry Bugalho já o fizeram. Quem quiser ver, é só clicar aqui e aqui.

O fato é que diante da perda de patrocínios para seu podcast, o sujeito veio a público dizer que foi mal interpretado e que a cultura do cancelamento é contra o diálogo e virou uma verdadeira caça às bruxas. Ver aqui e aqui.

Nada de novo debaixo do sol. Neste tempo de fake news e pós-verdade, uma das maneiras de promover a distorção da realidade é semear a confusão entre liberdade de pensamento e crime de opinião. Criminalizar o pensamento é praticamente impossível, porque só Deus consegue perscrutar o que as pessoas pensam; por isso, em atitude penitencial, elas pedem perdão por terem pecado em pensamento, palavras, atitudes e omissões. Entre nós simples mortais a coisa opera mais ou menos assim: o indivíduo pode até ter pensamentos racistas, o que é um fato lastimável, todavia se ele expressá-los em palavras (opinião) ou atitudes, poderá ser processado e condenado conforme o imperativo da lei.

Numa sociedade democrática e séria, criminalizar opiniões e atos racistas deveria ser algo dado e não motivo de querelas, sendo interpretado, sempre, como um salto de consciência no processo de avanço civilizatório. Como costuma dizer o professor de filosofia Clóvis de Barros Filho, a ética consiste em colocar a inteligência a serviço da boa convivência social. Não existe sociedade humana justa na qual práticas racistas são minimamente relativizadas. Situações em que isso acontece, como, por exemplo, o “questionamento” feito pelo Monark mostra a importância e a necessidade do mês de novembro, que, no Brasil, é conhecido como o mês da consciência negra.

Durante período, os debates e os eventos sobre o lugar do povo negro, com sua cultura e história, no processo de formação do país, bem como a luta antirracista se intensificam. Nesse sentido, a dica de leitura da Aroeira para esta semana é o texto “Preconceito racial de marca e preconceito racial de origem” de Oracy Nogueira, no qual ele apresenta um estudo sociológico da “situação racial” no Brasil, estabelecendo uma comparação com a “situação racial” dos Estados Unidos.

Segundo Nogueira, “os Estados Unidos e o Brasil constituem exemplos de dois tipos de ‘situações raciais’: um em que o preconceito racial é manifesto e insofismável e outro em que o próprio reconhecimento de preconceito tem dado margem a uma controvérsia difícil de superar. De um modo geral, tomando-se a literatura referente à ‘situação racial’ brasileira, produzida por estudiosos ou simples observadores brasileiros e norte-americanos, nota-se que os primeiros, influenciados pela ideologia de relações raciais característica do Brasil, tendem a negar ou a subestimar o preconceito aqui existente, enquanto os últimos, afeitos ao preconceito, tal como se apresenta este em seu país, não conseguem ‘ver’, na modalidade que aqui se apresenta”.

Texto recomendado para quem se interessa e quer aprofundar os estudos sobre a questão racial no Brasil. Fica a dica!