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Foto: Guilherme Santos/Sul 21 |
Por Ivânia Freitas*
Em 2018
já alertávamos que aquele segundo turno entre Haddad e Bolsonaro nos colocava
em uma encruzilhada que seria decisiva para a nossa frágil democracia.
Gritávamos que não era mais uma questão de direita ou de esquerda, mas era o
futuro da democracia que estava em jogo! Não fomos ouvidos e a aposta errada do
povo brasileiro levou ao bolsonarismo, uma das “páginas mais infelizes da nossa
história”!
O
bolsonarismo é um Frankstein, nasceu de muitas misturas, de muitos pedaços, um
deles, o ódio de classe, da classe que nunca aceitou que um metalúrgico
sindicalista no poder, fizesse melhor do que a direita que sempre esteve no
comando. Lógico, a direita não fez o que Lula fez porque nunca quis fazer.
Porque defender o povo, pensar em igualdade social, desnaturalizar a pobreza,
permitir que pobres fossem às universidades e virassem doutores, nunca foi
projeto de direita!
Pois é, o
bolsonarismo nasce desse pedaço da direita brasileira e encontra fertilizante
no incansável trabalho da grande mídia de massa (propriedade da classe
dominante) que, irritada com a ascensão dos mais pobres, receosa de perder seus
privilégios, semeou e cultivou o ódio por Lula, pelo PT, pelos movimentos
sociais, pelos sindicatos, por toda e qualquer forma de organização e
mobilização do povo que questionasse as desigualdades sociais e colocasse em
evidência que só há privilegiados quando aquilo que é de direito de todos, só é
acessado por alguns!
O
bolsonarismo nasceu daí, da união entre o ódio de classe e o poder do dinheiro
que domina os meios de comunicação tradicionais, cuja tarefa é fazer com que
“as ideias dominantes permaneçam sendo as ideias da classe dominante”.
Mas, o
dinheiro não é cobiçado apenas por quem o tem é, sobretudo, por quem ver nele a
oportunidade de sair da condição de dominado e passar a ser o dominador e,
assim, ele faz laço até com quem “Deus duvida”.
Com o
ódio em conserva e o dinheiro sendo usado para fermentá-lo, entrou no cenário
da política brasileira, o conservadorismo religioso. O núcleo evangélico virou
escudo para semear o ódio, ingrediente necessário para o fortalecimento do
bolsonarismo.
Os
evangélicos foram usados para fazer o “trabalho sujo”. Com a bíblia em uma das
mãos e uma arma na outra, o exército do ódio foi formado e, sob o disfarce da
defesa dos valores tradicionais, atraiu mentes e almas para o limbo da
história.
No pacote
dos valores tradicionais, as raízes da colonização fizeram o racismo emergir
com força total, as manifestações preconceituosas passaram a ser celebradas
como mantras que guiavam multidões. A homofobia, o desprezo às mulheres, o
desrespeito à pluralidade de ideias e às distintas crenças ganharam holofotes e
autofalantes nos púlpitos dos templos religiosos. As igrejas passaram a ser um
braço forte do estado de ódio que foi batizado nas eleições de 2018 e que
encontrou eco, base e finalidade nos fieis súditos dos pastores do rebanho do
mal.
Um outro
pedaço do Frankstein formou-se inspirado na história. Sem a mesma inteligência,
mas sob a proteção do foro privilegiado, as táticas utilizadas pelos maiores
ditadores do mundo foram trazidas para compor a base bolsonarista.
O falso
patriotismo, cujo valor das cores da bandeira era maior do que a preocupação
com o aumento drástico da fome e da pobreza, cooptou mentes ignorantes e deu
gás à classe dominante para agir livremente, uma vez que, dali em diante, a
pauta da desigualdade social que demarca uma linha divisória entre os
interesses dos que dominam e dos que são dominados, estaria suprimida pela
camisa verde-amarela que, supostamente, deixava todos os “mugidos” iguais, nas
grandes manifestações de rua que levavam, pela primeira vez, a classe dominante
a se “misturar” com o povo.
Mas o
Frankstein era incontrolável. Ele cresceu tanto que se sentiu insuperável! Nada
poderia detê-lo. O bolsonarismo em nascimento não marcou compromisso com
propostas para resolver os problemas do Brasil, não precisou convencer ninguém,
bastou uma cena de teatro ao ar livre, uma falsa e bem orquestrada facada, uma
fábrica de Fake News bem articulada pelos filhos do “rei”, uma boa parceria com
o “centrão” sedento pelo poder e a possibilidade de tudo ser sigilosamente
escondido por 100 anos, que ele se fez gigante.
Como nas
táticas das ditaduras mais cruéis, ele avançou sobre os artistas, passou a
negar a ciência, a desmontar a história, a ameaçar professores, intelectuais e
a imprensa. Foi nesse momento, quando a grande mídia brasileira viu que o monstro
era incontrolável, que a “ficha caiu”, mas, para quem mentiu tanto e afirmou
toda uma vida, que a esquerda era uma produção satânica, que os partidos,
organizações e movimentos que defendiam os trabalhadores e trabalhadoras e que
lutavam por igualdade social eram baderneiros e bandidos; que fez os mais
pobres, os explorados, acreditarem que o capitalismo é Deus e o socialismo o
diabo; a mesma mídia que fez a dona do salão de beleza ou de uma pequena loja
de roupas, defender o discurso dos grandes empresários e condenar os direitos
da classe trabalhadora (sem perceber que condenava a si mesma); a mídia que
pintou, desenhou e divulgou Lula como um possível ditador perverso, achou no bolsonarismo
o que tanto temeu.
A grande
mídia brasileira viu-se acuada, sem saída, sem capacidade de diálogo e de
convencimento diante da cegueira coletiva que o Frankstein provocou. E foi em
meio à maior crise sanitária da história, que a mídia tradicional entrou no
combate ao monstro que ela mesmo ajudou a criar e só aí ela sentiu que as
manifestações do bolsonarismo, que deixavam o mundo pasmado, poderiam virar
algo muito maior. Um cenário pior era possível!
Como no
cinema, como em um filme de terror, a mídia viu ser concretizado na cena
brasileira, tudo aquilo que um dia anunciou que seria feito pela esquerda e
pelo PT. Foi com horror estampado no rosto dos jornalistas, que se anunciou que
o povo brasileiro agora defendia armas e condenava livros; foi com horror e
temor que se viu o presidente da nação agredir jornalistas em pleno exercício
da profissão; que se anunciou as inúmeras trocas de diretores da polícia
federal, com objetivo de não dar prosseguimento às investigações de corrupção
que envolviam filhos do presidente (mas não eram os filhos do Lula, como tanto
se esperou anunciar ao longo dos seus mandatos)!
A
imprensa brasileira se viu cabisbaixa. O Brasil estava isolado do mundo, cada
ida do presidente a um país era motivo de apreensão pelos inevitáveis
constrangimentos que sua falta de decência nos levaria a passar.
E o
bolsonarismo crescia. Crescia sem controle, sem limites, com a crueldade
ganhando cada vez mais espaço. Parecia não haver saídas! A grande mídia, que há
anos havia sido a escola de formação contra a esquerda, contra Lula, contra o
PT, agora só via em Lula a possibilidade de dar a volta para o caminho oposto à
ditadura fascista que o bolsonarismo nos levaria.
E foi aí,
que a frase “não é mais uma questão de direita ou de esquerda”, que tentamos
alertar em 2018, passou a ter “outro” sentido aos ouvidos de parte da nação,
inclusive, da grande mídia.
O passo
de Lula foi inesperado e acertado, convidou um político expressivo da direita,
o Geraldo Alckmin e deu início a uma grande coalisão que abriu uma frente
política com fim de retomar a democracia, frear a violência e combater a fome
que estavam asfixiando a esperança no presente e no futuro.
Em uma
ampla mobilização nacional, vimos um novo Brasil nascer. Ícones da direita se
juntaram com ícones da esquerda e, mesmo a contragosto, a mídia brasileira
passou a reconhecer as injustiças cometidas contra Lula, contra os governos do
PT.
A mídia
teve que reconhecer que com Lula, havia diálogo; com Lula, o Brasil ocupava um
lugar respeitado no cenário mundial; com Lula, a liberdade de expressão era
garantida; professores não eram ameaças; a imprensa não era silenciada, as
estatísticas sociais apontavam mudança, avanço e mais igualdade. Com Lula,
nenhuma igreja foi fechada, as instituições foram respeitadas, as religiões
ficavam dentro dos templos, a arte e a cultura eram incentivadas como formas de
desenvolvimento e crescimento da nação.
Talvez,
por tudo isso, a mesma mídia que julgou e condenou Lula de forma implacável em
seus plantões e matérias chamativas, sorriu e comemorou aliviada a sua terceira
vitória nas urnas. Lula foi redimido pelos seus algozes e a justiça se fez pela
própria história.
As
eleições que deram a vitória à democracia neste 30 de outubro de 2022, foram
uma composição não apenas política, mas musical, artística e educativa, um
encontro plural de gentes combativas, movidas pela esperança e pelo amor que se
revelaram as armas mais poderosas deste combate. Havia um único entendimento:
as eleições de 2022 eram sim, uma questão de vida ou morte (da democracia)!
Ainda que
permaneçam as diferenças entre direita e esquerda, ainda que as lutas que se
desenham adiante não sejam pequenas; ainda que as classes sociais (dominante e
trabalhadora) permaneçam em disputa; ainda que o ódio não tenha sido suprimido
(e apenas o seu volume esteja mais baixo nos púlpitos, nas ruas e nas redes),
um Brasil se ergue de mãos dadas e está em plena recomposição democrática.
Todas as
instituições públicas que defendem o estado de direito terão papel fundamental
na reconstrução do país que está profundamente abalado e ainda mais dividido.
Os meios
de comunicação e, sobretudo, as escolas, universidades, precisarão dar vez e
voz à história, aos fatos, aos dados, à ciência, à cultura e à arte que serão
instrumentos fundamentais para vencer as chamas acesas do bolsonarismo e assegurar
que os pilares da democracia estejam mais fortes para os enfrentamentos
futuros.
O
bolsonarismo será vencido, sem dúvidas, mas não será esquecido. A história já
está registrada. Os que que lutaram pela democracia, os que se colocaram ao
lado da justiça, da paz; os que morreram em consequência da irresponsabilidade
do Estado, os que estiveram no combate para derrubar o terrível Frankstein já
estão nos livros da história e ocupam o lugar de honra.
Aqueles
que escolheram o limbo, os que optaram pela ignorância também estão nestes
livros, mas serão lembrados pela vergonha que nem o tempo será capaz de apagar.
Estamos
na luta, o novo Brasil está apenas recomeçando. Muitas águas passarão por
debaixo da ponte ao longo dos próximos anos, mas nós estaremos aqui, defendendo
o estado de direito, de olho no percurso e sempre a postos para não permitir
que voltemos a caminhar pra trás.
“O mar da
história é agitado”, como disse o poeta, mas nós vamos atravessá-lo, cortando-o
“como uma quilha corta as ondas”. Sem dúvidas que as “ameaças e as guerras” nos
desafiam, mas estamos dispostos a abrir novas trincheiras de esperança em cada
canto deste país.
Nossas
bases serão o conhecimento que gera uma onda de ações transformadoras que são
capazes de derrubar as cercas da ignorância. As mentes das crianças e jovens
serão inundadas por girassóis esperançosos repletos de amor e de muita
história, uma história da vida real, de luta, de resistência e de construção
permanente da nossa tão preciosa democracia. O Brasil voltará a ser feliz!
Viva a
Lula e ao povo Brasileiro.
* Doutora em Educação e Professora da UNEB - Campus VII.
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